Pinturas Rupestres de Vale de Junco: Uma viagem à Pré-História em Esperança (Arronches)

Foi na Serra dos Louções, perto da pequena aldeia de Esperança, no concelho de Arronches, que, num discreto abrigo de quartzito, recuámos vários milhares de anos em pouco minutos.
Foi aqui que encontrámos as Pinturas Rupestres de Vale de Junco, também conhecidas como Lapa dos Gaivões, um dos mais importantes conjuntos de arte rupestre esquemática desta região do Alto Alentejo.
À primeira vista, algumas das figuras podem mesmo passar despercebidas. Depois de os olhos se habituarem à rocha e começarmos a procurar os tons avermelhados, aparecem figuras humanas, animais, barras, linhas e símbolos cuja verdadeira mensagem ficou perdida algures na Pré-História.
E talvez seja precisamente esse mistério que torna este lugar tão especial.

Vale de Junco ou Lapa dos Gaivões?
A designação oficial utilizada pelo Património Cultural é “Abrigo com pinturas rupestres de Vale de Junco (Esperança)“.
Em trabalhos realizados no início da década de 1960, Luís de Albuquerque e Castro e Octávio da Veiga Ferreira estudaram a região e passaram a utilizar a designação “Lapa dos Gaivões” para o antigo Abrigo de Valdejunco.
Segundo a documentação arqueológica, o nome terá sido escolhido devido à presença de gaivões que faziam ninho no abrigo e também pela semelhança que os investigadores encontraram entre algumas figuras e aves em voo.
O abrigo forma-se numa parede de quartzito e tem dimensões consideráveis: cerca de 13 metros de comprimento e uma profundidade máxima próxima dos cinco metros. A sua altura varia bastante, desde apenas meio metro nas zonas interiores até cerca de três metros na parte exterior. Os painéis pintados distribuem-se pelas paredes, teto e superfícies exteriores do abrigo.
Existe um pequeno passadiço que permite aproximarmo-nos das pinturas sem pisar diretamente a área arqueológica.

Pinturas com cerca de cinco mil anos
Determinar a idade exata de uma pintura rupestre não é simples e, ao longo do último século, diferentes investigadores propuseram cronologias e interpretações distintas.
Atualmente, o conjunto de Vale de Junco é integrado na chamada arte rupestre esquemática pós-paleolítica, relacionada sobretudo com as comunidades agro-pastoris que ocuparam a Península Ibérica durante a Pré-História recente.
Os estudos que analisam este tipo de iconografia enquadram grande parte destas manifestações entre o final do IV milénio e o final do III milénio a.C., abrangendo essencialmente o Neolítico final e o Calcolítico. O próprio Município de Arronches apresenta a Lapa dos Gaivões como um conjunto com cerca de 5.000 anos.
Falamos, portanto, de pinturas realizadas por comunidades que já praticavam agricultura e pastorícia e cuja relação com o território era muito diferente da dos grupos de caçadores-recoletores do Paleolítico.

O que está representado nas pinturas?
Grande parte das figuras foi executada em tons avermelhados. A ficha oficial do monumento refere pinturas maioritariamente realizadas a ocre vermelho, embora tenham sido identificadas diferentes tonalidades, desde o amarelo até ao negro.
Análises realizadas aos pigmentos acrescentaram um pormenor interessante: nas pinturas vermelhas e alaranjadas foi identificada hematite, um mineral rico em óxido de ferro frequentemente utilizado como pigmento. Algumas barras negras existentes no interior do abrigo foram, por sua vez, realizadas com carvão.
Entre as representações identificadas encontram-se:
- figuras antropomórficas, representando seres humanos;
- figuras zoomórficas, associadas a animais;
- cervídeos;
- linhas serpentiformes;
- motivos ramiformes, semelhantes a pequenos ramos;
- motivos pectiformes;
- pontos e barras;
- formas geométricas e outros símbolos de interpretação desconhecida.
Num dos painéis foram, por exemplo, identificados vários cervídeos com hastes ramificadas, aparentemente integrados numa composição mais complexa. Noutro existem conjuntos de barras cuidadosamente alinhadas, incluindo um grupo de 28 traços. Já foi sugerida uma eventual utilização destes conjuntos como forma de contagem, mas essa explicação permanece apenas como hipótese.
Interpretar aquilo que pessoas de há cinco mil anos pretendiam representar é inevitavelmente difícil. Podemos reconhecer uma figura humana ou um animal, mas compreender o seu significado social, religioso ou ritual é outra questão.

E o famoso rinoceronte de Vale de Junco?
Esta é uma das curiosidades mais interessantes associadas às pinturas.
Em vários websites é possível encontrar referências à existência de um rinoceronte bicorne em Vale de Junco. Essa interpretação serviu mesmo para algumas dessas páginas atribuírem às pinturas uma idade superior a dez mil anos. No entanto, essa informação está desatualizada.
Henri Breuil interpretou uma das figuras como um rinoceronte, mas a própria ficha oficial do Património Cultural português refere expressamente essa identificação como errónea. Estudos posteriores da iconografia propõem para uma das grandes representações zoomórficas do abrigo a interpretação de um javali, embora, como acontece frequentemente na arte esquemática, qualquer identificação de espécie deva ser encarada com prudência.
É um bom exemplo de como a arqueologia evolui: novas técnicas, novos levantamentos e novas comparações permitem rever interpretações feitas há mais de um século.

Monumento Nacional desde 1970
A importância arqueológica de Vale de Junco levou à sua classificação como Monumento Nacional, através do Decreto n.º 251/70, publicado a 3 de junho de 1970.
A proteção não impediu, contudo, que durante décadas o local sofresse vários problemas de conservação.
Há documentação sobre fogueiras feitas no interior do abrigo, acumulação de fumo sobre as paredes, inscrições modernas, danos provocados diretamente na rocha e degradação causada pelos agentes naturais. Na década de 1990 foi instalada a estrutura de madeira (passadiços) de acesso ao abrigo, ajudando também a criar alguma separação entre os visitantes e os painéis arqueológicos.
Quando visitamos um lugar assim é fácil perceber porque é tão importante não tocar nas pinturas, não molhar a rocha e não tentar realçar as figuras. Cinco mil anos de sobrevivência podem ser comprometidos por pequenos gestos repetidos por milhares de visitantes.

PR1 ARR – Percurso da Esperança
Para quem prefere transformar a visita numa caminhada, a Lapa dos Gaivões é um dos principais pontos de interesse do PR1 ARR – Percurso da Esperança.
O percurso oficial é circular, começa e termina em Esperança e apresenta atualmente cerca de 15,3 km, 168 metros de subida acumulada e uma duração indicativa próxima das quatro horas. É classificado como de dificuldade moderada.
Pelo caminho encontra uma paisagem bastante característica desta zona de transição para a Serra de São Mamede, passando por pequenos aglomerados rurais, montados de sobro, vinhas e pela zona fronteiriça do Marco.
A Lapa dos Gaivões surge já numa fase relativamente avançada do percurso e acaba por funcionar como uma espécie de viagem final no tempo: depois de vários quilómetros pela paisagem atual, chegamos às mesmas paredes de quartzito onde alguém, há cerca de cinco mil anos, decidiu deixar uma marca.

Um pequeno abrigo com uma enorme história
Vale de Junco não tem a monumentalidade de um castelo nem a dimensão de um grande sítio arqueológico. É apenas um abrigo numa encosta da Serra dos Louções.
Mas basta pensar no tempo que separa quem pintou aquelas figuras de quem hoje as observa, para que o lugar ganhe outra dimensão.
Não sabemos os nomes destas pessoas. Não conhecemos a língua que falavam. Não sabemos ao certo porque desenharam determinados animais, figuras humanas, barras ou símbolos. Nem sequer conseguimos interpretar com segurança grande parte das mensagens que deixaram. Sabemos apenas que estiveram aqui.
E, cinco mil anos depois, uma pequena parte do seu mundo continua pintada nas rochas de Esperança.


Dicas:
- Levar calçado confortável e adequado a terreno irregular;
- Evitar visitar nas horas de maior calor durante o verão;
- Levar água, sobretudo se fizer o PR1 ARR – Percurso da Esperança;
- Não tocar nem molhar as pinturas rupestres;
- Não usar flash ou qualquer método para tentar realçar os pigmentos;
- Respeitar as estruturas de proteção e os passadiços existentes;
- Visitar com boa luz natural para facilitar a observação das figuras;
- Combinar a visita com outros pontos de interesse de Esperança e Arronches;
- Confirmar previamente as condições de acesso ao local;
- Levar binóculos ou máquina fotográfica para observar detalhes sem se aproximar demasiado das pinturas.
Fontes:
Património Cultural, Universidade do Algarve – Sapientia, Junta de Freguesia de Esperança, Turismo do Alentejo e Ribatejo – Alentejo Ribatejo Outdoor, Município de Arronches.

Vale de Junco, Serra de LouçõesEsperança – Arronches

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