Sentir uma Ilha (Vila do Corvo - Corvo)

O Corvo existe para além do Caldeirão. A grande maioria dos visitantes da ilha chega no barco proveniente das Flores e tem à sua espera o transporte contratado a uma agência turística (ou até a particulares) para subir ao Caldeirão. Este é de facto o maior pólo de atracção da ilha, com os vários “lagos” na cratera e as suas ilhotas de um verde intenso. Uma paisagem inesquecível que parece não ser possível neste mundo e que por isso é o maior postal ilustrado da mais pequena ilha açoreana. Mas visitar o Caldeirão não é conhecer o Corvo.
Para conhecer esta ilha é preciso estar sem pressas, conviver com os corvinos e como os corvinos numa simplicidade genuína e hospitaleira.
Estou a falar de um pequeno rochedo no meio do oceano onde na solidão não nos sentimos sozinhos, onde a conversa é fácil e de coração aberto. Testemunho disso ocorreu no bar dos Bombeiros Voluntários quando ao perguntar se serviam sopa para a bebé, e após resposta negativa da funcionária, pois o bar não dispunha de serviço de almoço, um corvino, que sentado numa mesa ouviu o diálogo, sem nos conhecer de lado nenhum, dispôs-se de imediato a ir a casa buscar um prato de sopa para dar à menina. Agradecemos a amabilidade, impressionados com esta disponibilidade imediata de um desconhecido, mas não foi necessário pois tínhamos alternativas. Ficámos a pensar nisso.

Visitar o Caldeirão não é conhecer o Corvo. Para conhecer esta ilha é preciso estar sem pressas, conviver com os corvinos e como os corvinos numa simplicidade genuína e hospitaleira.

Aconteceu-nos algo semelhante em Trás-os-Montes há uns anos. Será uma característica das populações mais isoladas? Será que o tamanho do coração e a hospitalidade de braços abertos aumentam na mesma proporção da distância aos grandes centros urbanos?
Sinceramente não consigo estabelecer um padrão pois pelas viagens que tenho feito por Portugal este é efectivamente um país que sabe receber. Mas há lugares que nos marcam de um forma diferente. Há lugares que nos avivam a essência do que é ser português, sempre disponível a ajudar o próximo numa hospitalidade reconhecida em todo o mundo. Se o isolamento pode por um lado empedernir a alma, por outro pode abrir o coração dos homens.
Assim, se estiverem a pensar em visitar o Corvo, vão e deixem-se estar por uns dias. Percorram as ruas da vila, as arribas, visitem o Centro de Interpretação Ambiental e Cultural, o Caldeirão e descubram a Cara do Índio mas acima de tudo conheçam os corvinos, as histórias e as lendas. Em pouco tempo irão com certeza sentir-se parte daquele pequeno mas tão grande rochedo.
Regressei com a estranha sensação que não vim ao Corvo, vim a casa e parte de nós fica sempre em casa, não é?

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39° 40′ 19” N, 31° 6′ 42” W

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