Percurso Pedestre nas Arribas da Vila (Vila do Corvo - Corvo)

Saciámos a fome com um almoço rápido na cozinha do “The Pirates’ Nest“. À massa cozida juntámos umas bifanas que devorámos num ápice para não perdermos muito tempo, já que pela tarde esperava-nos nova aventura na Ilha do Corvo.
Encontrámo-nos com o Luís, o nosso guia e proprietário do “ninho”, à hora marcada. O nevoeiro teimava em não levantar e por isso decidimos ficar por altitudes mais baixas. Durante a manhã conhecemos a lindíssima Vila do Corvo num percurso pedestre carregado de histórias e agora iríamos percorrer as suas arribas e terrenos circundantes, ganhando uma outra perspectiva sobre a beleza do aglomerado populacional que se ergue do mar para a montanha.
Partimos do “The Pirates’ Nest” percorrendo alguns metros na Estrada para o Caldeirão para logo a seguir entrarmos num trilho íngreme em terra batida. No topo encontramos novamente o asfalto e paramos para recuperar o fôlego, que nesta fase inicial já era escasso. O nevoeiro não deixa ver a Ilha das Flores, companheira sempre presente, e acentua ainda mais a ideia de isolamento pertença deste pedaço de terra com 6,5 km de comprimento e 4 km de largura no meio do mar.
A vila cresceu numa fajã lávica aproveitando a maior superfície aplanada da ilha, para daí começar a conquistar terreno às arribas que a protegem dos fortes ventos que por vezes se fazem sentir. Observamos as obras de ampliação do Porto da Casa e o casario que se afunila em direcção ao mar, terminando no aeroporto, um traço cinzento bem definido que rasga com parte do isolamento a que os corvinos estão sujeitos. São cerca de 400 os que vivem neste cantinho a sul do Caldeirão.
Sempre com a vila sob o nosso olhar, percorremos as arribas de vegetação rasteira, de verdes luxuriantes em direcção ao Abrigo do Austríaco. O gado que se alimenta nestes terrenos aproveita a abundância de pasto que em alguns locais quase o cobre.

Sempre com a vila sob o nosso olhar, percorremos as arribas de vegetação rasteira, de verdes luxuriantes em direcção ao Abrigo do Austríaco.

O Abrigo do Austríaco não é mais do que uma construção tosca, quatro paredes de pedra e um tecto em vigas de madeira, tudo agora ao abandono, onde ainda se podem observar vestígios da presença humana, como um pequeno banco de madeira deixado a um canto. Duas janelas espreitam para o mar numa localização privilegiada. “O austríaco gostava de ver os barcos” – diz o Luís, contando histórias de outros tempos e que se ouvem pela vila. Agora que já não se encontra na ilha, o seu abrigo em ruínas e camuflado na densa vegetação faz a ponte e é o mote para recordar esse passado não muito distante.
Descemos a encosta junto à Reserva de Nidificação de Aves Selvagens, uma pequena área restrita e vedada na arriba, a norte do aeroporto, protegida de predadores e fundamentalmente do homem. Aqui observamos as paisagens escarpadas da costa oeste da ilha, grandes falésias que penetram num intenso nevoeiro.
Chegamos à praia de areia negra e à tranquilidade da sua enseada que nos convida à sua contemplação. Continuamos a caminhada pela Rua Padre Eugénio Coelho de Rita, paralelamente ao aeroporto, e pelo já nosso conhecido “Caminho dos Moinhos” chegamos à vila a tempo de ver um espectáculo incrível.
Dificilmente quem vem ao Corvo apenas para ver o Caldeirão tem a oportunidade de assistir ao que presenciámos neste dia. Para isso é preciso estar na ilha com tempo, com todo o tempo do mundo, viver com os corvinos e conhecer uma comunidade que uma visita de poucas horas não permite.
Este “estar sem pressa” permitiu-nos assistir a uma actividade cada vez mais rara na ilha, o cerco a uma cabra selvagem nas escarpas rochosas e quase inacessíveis ao homem. No rochedo junto ao Porto da Casa, um pequeno grupo de homens cerca uma cabra selvagem que ali ficou encurralada. No negro da rocha vislumbramos dois pequenos pontinhos brancos, o caçador e a presa, enquanto cá em baixo nas pedras junto ao mar, outros dois esperam o desenrolar da caçada. O caçador bloqueia o caminho de regresso do animal e tenta que este se precipite pela escarpa para ser apanhado pelos seus colegas. Dito assim parece um acto demasiado cruel para os nossos dias, mas é explicado pelo instinto de sobrevivência que, passando por várias gerações, permite que alguns corvinos arrisquem a vida nesta actividade perigosa em busca de alimento. Não ficámos para assistir ao desenrolar do cerco e terminámos o percurso na sede dos Bombeiros Voluntários da Ilha do Corvo. Numa mesa do bar onde a conversa é fácil com uma gente de coração aberto, esperámos pelo tempo que passou até ao cair da noite.

The Pirates' Nest

FICHA TÉCNICA

5,1 kmscircular
ALTIMETRIA
Altimetria
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