Passeio de Moliceiro (Aveiro)

Esta é uma cidade especial para mim. Foi em meados dos anos 90 que cheguei pela primeira vez a Aveiro com um mundo de sonhos na bagagem e tanto ainda por aprender. Foi a cidade que me acolheu e formou durante mais de 6 anos, reforçando os valores adquiridos num período académico e laboral que me fez crescer a todos os níveis. Recordo com saudade as amizades, cada rua e cada canal da ria que nem sempre foi assim tão limpa.
Nesta época a ria era sinónimo de águas castanhas, sujas e mal cheirosas onde apenas cardumes de taínhas conseguiam sobreviver. A maré baixa desvendava a céu aberto o lodo e o moliço com um odor difícil de suportar. Foi assim durante algum tempo mas felizmente tudo isto mudou.
Aveiro é hoje um corpo em perpétuo movimento. Nas suas veias e artérias correm as águas da ria num pulsar enérgico que dinamiza toda a cidade. A cidade cresceu, os edifícios foram restaurados, a Praça do Peixe onde tantas horas vagueei no intervalo dos estudos ganhou nova vida, novas áreas habitacionais foram erguidas, espaços comerciais nasceram, a mítica “Feira de Março” mudou de localização, novas vias de acesso foram pensadas, viadutos erguidos e túneis escavados, mas acima de tudo a ria foi limpa e foram criadas as condições para hoje ser o principal pólo turístico dinamizador da cidade.

Aveiro é um corpo em perpétuo movimento. Nas suas veias e artérias correm as águas da ria num pulsar enérgico que dinamiza toda a cidade.

Encontro sempre uma boa razão para regressar a Aveiro e voltar a encher o peito de recordações felizes, mas em todos estes anos, havia uma experiência muito particular que me faltava cumprir na cidade: um passeio de Moliceiro.
Assim, foi bem cedo que chegámos ao Largo da Apresentação no centro da cidade, bem perto do Rossio e da ria, para levantar os nossos bilhetes no Zeca. É um espaço fácil de encontrar pois a Maria Bonita, que nos recebe sempre alegre e colorida, não nos deixa enganar. É provavelmente a sardinha mais catita de Aveiro!
Sendo uma homenagem, no nome e no espírito, ao aveirense Zeca Afonso, não precisamos de grandes desculpas para trazer um amigo, sentarmo-nos um pouco e degustar a variedade de produtos tradicionais que o Zeca tem para nos dar a conhecer. Mas isso ficava para mais logo pois agora estava a chegar a hora marcada para o passeio e não podíamos perder muito mais tempo.
Descemos o largo em passo acelerado em direcção ao canal principal da ria. Encontrámos o nosso moliceiro na primeira banca da Rua Dr. Bernardino Machado, para quem vem da Ponte Rotunda. Aqui iríamos começar o ansiado passeio de moliceiro.
O fluxo de turistas era enorme e os moliceiros rapidamente se encheram de conversas em vários idiomas. O Capitão ligou o motor e, ouvindo atentamente as explicações do guia, iniciámos o passeio que irá percorrer os quatro canais da cidade, começando no Canal Central, percorrendo o Canal do Cojo, o Canal das Pirâmides e por último o Canal de São Roque.
Após passagem sob a Ponte Rotunda (Praça Humberto Delgado) encontramos à nossa esquerda o Edifício da Capitania, datado do séc. XV, que desempenhou originalmente funções de um moinho de maré e onde agora se situa a sede da Assembleia Municipal. A estrutura está assente sobre um conjunto de arcos visíveis quando a maré na ria assim o permite.
Estamos no Canal do Cojo, a área moderna de Aveiro, com o Fórum Aveiro, Centro Comercial ao ar livre, a assumir grande destaque prolongando-se paralelamente ao canal.
Várias pontes pedonais ligam as duas margens facilitando o fluxo de transeuntes na cidade. Passamos junto ao Mercado Manuel Firmino e chegamos à Fonte Nova para contemplar o Centro de Congresso de Aveiro, antiga Fábrica Jerónimo Pereira de Campos, um exemplar da indústria cerâmica na região que em 1995 foi reconvertida neste espaço polivalente. Perto, o Hotel Meliá Ria ergue-se das águas numa arquitectura moderna e que não passa despercebida.
Invertemos aqui o sentido da navegação e regressamos ao canal central. Se prestarmos atenção ao património edificado, principalmente da Rua João Mendonça e Jardim do Rossio, observamos inúmeras evidências de Arte Nova que merecem uma pausa para um olhar mais atento. Existe por isso em Aveiro a Rota da Arte Nova, um percurso concebido para ajudar a identificar os vestígios arquitectónicos deste período do séc. XX.
Os moliceiros cruzam-se na ria numa azáfama constante, transformando esta artéria central numa festa de cor e animação. Estamos no Canal das Pirâmides, o canal de acesso às marinhas de sal, e passamos agora por baixo da A25 até às “Pirâmides”, duas colunas junto à eclusa que controla o caudal da ria na cidade. É este sistema que o mantém estável e seguro à navegação.
Aqui retornamos para conhecer o famoso canal de São Roque. O nosso guia retira a parte superior da proa do moliceiro em plena navegação para este conseguir passar por baixo da Ponte de São João, no pequeno túnel que lhe dá acesso. Vemos adiante a peculiar ponte pedonal circular em ferro e em forma de laço que liga a margem mais histórica, com os armazéns de sal e peixe, ao parque de lazer na margem oposta. Quase perpendicular a este canal, o Canal dos Botirões transporta o olhar para o Mercado do Peixe ao fundo.
Seguimos em frente para descobrir a Ponte de Carcavelos, também conhecida por Ponte dos Namorados. Construída em 1953, 11 anos após a queda da ponte original, era o ponto de passagem obrigatório para quem trabalhava no sal e dela se pode também admirar as paisagens sobre as salinas, muito apreciadas por casais de namorados ao pôr do sol.
Após cerca de 40 minutos regressamos ao pequeno cais no Canal Central onde concluímos o passeio de moliceiro com um sorriso sincero. Mas as surpresas não terminaram aqui.
Caminhámos pela cidade e regressámos ao Zeca para nos despedirmos da melhor forma de Aveiro com a degustação de sabores regionais. Os Ovos Moles já todos conhecemos e apreciamos mas aqui vêm acompanhados com Raivas, Bolachas e Licores tradicionais já premiados por todo o mundo, que nos surpreendem pelos seus sabores. Para quem preferir pode acompanhar com sumo e o de limão é fantástico.
Visitem Aveiro e percam-se pela sua história, tradição, gentes, ruelas e sabores…com certeza se perderão também como eu, de amores pela cidade.

FICHA TÉCNICA

5,8 kmscircular
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