Cruzeiro das Pontes (Vila Nova de Gaia e Porto)O Douro é mágico. Se me pedissem para o descrever em apenas uma palavra, esta seria talvez a que faria mais sentido, mas ainda assim poderia pecar por defeito.
Sendo o terceiro maior rio da Península Ibérica, que nasce em Espanha nos Picos da “Sierra de Urbión”, na Cordilheira Cantábrica e a 2080m de altitude, percorre cerca de 840 kms para chegar à sua foz, beijando como que em despedida, as cidades do Porto e de Vila Nova de Gaia  que cresceram ao vê-lo passar.
Não conhecendo todo o seu trajecto, naveguei nas suas águas internacionais a montante de Miranda do Douro, deixei-me levar pelo comboio na margem entre a Régua e Pinhão, percorri quilómetros nas estradas que o miram em socalcos vinhateiros e hoje iria acompanhar os últimos instantes das suas águas antes de encontrarem o oceano.
O rio Douro é cada vez mais o foco de união entre estas duas grandes cidades que desde cedo se habituaram a ultrapassar as limitações naturais com soluções engenhosas, como a ancestral e peculiar Ponte das Barcas, no princípio do séc. XIX.
Após a grande tragédia da Invasão Napoleónica, quando a população do Porto se precipitou para a Ponte das Barcas (com o intuito de procurar refugio na cidade vizinha) e esta não aguentou, a ponte foi substituída por uma construção mais moderna, a Ponte Pênsil, acompanhando o desenvolvimento das tecnologias na época.
O Cruzeiro das Pontes é assim uma visita ao passado e presente desta região, uma oportunidade única para conhecer um pouco da sua alma.
Com cerca de 60 minutos, percorre as pontes da foz do Douro, que unem o Porto a Vila Nova de Gaia. Foi no “Carlota do Douro”, um dos Rabelos Blue Boats da Douro Azul, inspirados nos tradicionais barcos rabelos que percorriam o Douro transportando as pipas de Vinho do Porto, que realizei este cruzeiro relaxante.
Depois de saborear uma deliciosa “francesinha” na Ribeira de Gaia, não foi preciso esperar muito para ver a chegada do Blue Boat ao Cais de Gaia. Com partidas de hora a hora, desde as 9h:30 até às 17h30, a experiência pode ser realizada todos os dias da semana.
O embarque começou a ser feito à hora marcada e ao entrar no convés foram disponibilizados uns auscultadores para que pudéssemos acompanhar as informações do audio-guia. Esta é sem dúvida uma mais valia que enriquece ainda mais esta experiência no Douro. Podemos escolher de entre os 16 idiomas disponíveis, em qual queremos ouvir as histórias que a zona ribeirinha do Douro tem para contar. Após o embarque do último passageiro, o “Carlota do Douro” deixou o cais de Gaia e iniciou a navegação para montante.

O Cruzeiro das Pontes é uma visita ao passado e presente desta região, uma oportunidade única para conhecer um pouco da sua alma.

Na primeira metade do cruzeiro, olhamos para a margem direita do rio, a margem norte, na cidade do Porto. Escuto atentamente o audio-guia tentando seguir com os olhos as histórias contadas e as particularidades da paisagem.
Encontro um cenário de beleza indescritível, uma frente ribeirinha com relatos fantásticos da cidade Património Mundial e das suas gentes.
Chegamos à primeira ponte, a Ponte de D. Luís I, inaugurada em 1886 e por isso a ponte mais antiga da cidade ainda em actividade. O tabuleiro inferior está aberto ao trânsito automóvel enquanto que actualmente, no tabuleiro superior, é o metropolitano quem mais ordena e por aqui passa a linha amarela do Metro do Porto.
Seguimos para a Ponte Infante Dom Henrique (ou Ponte do Infante) baptizada em honra do Portuense Infante D. Henrique, que liga as Fontainhas (no Porto) à Serra do Pilar (em Gaia). É a ponte mais recente, inaugurada em 2003, para trânsito rodoviário.
Ao sabor do vento e dos pequenos salpicos de água doce que beijavam o casco do barco, chegamos à Ponte de D. Maria Pia, construída pela empresa de Gustave Eiffel e inaugurada em Outubro de 1877. A sua construção permitiu a ligação ferroviária entre o Norte e o Sul, o que fomentou e transformou a industria desta região.
Em 1991 foi construída a pouca distância, a Ponte de São João, para substituir a Ponte Maria Pia que já não conseguia escoar todo o tráfego. Aqui invertemos o sentido de navegação e agora contra o vento descemos para jusante. Nas nossas costas, ao longe, ficou a Ponte do Freixo, a travessia da cidade do Porto mais a montante do rio.
Olhamos agora para a margem esquerda e acompanhamos a Serra do Pilar onde o Mosteiro, considerado pela UNESCO como Património da Humanidade, é talvez o seu maior ex-libris.
Depois de passar o Cais de Gaia e o Estaleiro, onde alguns edifícios em ruínas esperam por melhores dias,  encontro o longo passadiço fluvial que acompanha a margem do Douro. Pensei que seria uma caminhada interessante de realizar na próxima visita a Vila Nova de Gaia.
Estamos já sob o grande arco da Ponte da Arrábida, projecto do engenheiro Edgar Cardoso, que à data da construção era o maior arco do mundo em betão armado.
Chegamos à Afurada, terra de pescadores, de gentes do mar e de tradições piscatórias. Junto ao Cais invertemos o sentido da navegação e entrámos na fase final do Cruzeiro. Os olhares percorrem as margens pela última vez, tentando registar e guardar a sete chaves os últimos pormenores desta paisagem.
Regressamos serenamente ao Cais de Gaia onde terminamos o Cruzeiro das Pontes do Douro.
Não sendo este um percurso pedestre é com certeza uma experiência obrigatória para quem visita o Porto e Vila Nova de Gaia, querendo desfrutar de um passeio incrível, observando ambas as cidades de uma outra perspectiva e ao mesmo tempo conhecendo um pouco das suas memórias. Estejam atentos ao audio-guia e aqui fica um pequeno desafio: tentem descobrir o convento do cenário da obra “Amor de Perdição”, de Camilo Castelo Branco, onde Teresa de Albuquerque acenou a Simão Botelho, o amor da sua vida, quando este partia num barco no Douro, a caminho do degredo na Índia.

FICHA TÉCNICA

10,3 kmslinear
ida e volta
ALTIMETRIA
Altimetria
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