Caminhada em Monte de Lobos (Mortágua)

Monte de Lobos traz-me de volta as memórias mais antigas da minha infância. Era nesta aldeia do concelho de Mortágua que os dias passavam muito devagar em meados da década de 80 quando as águas do ribeiro que corriam debaixo da ponte ainda ouviam as nossas gargalhadas em banhos frios e revigorantes. Ao lado, a roupa era lavada e batida nas pedras polidas e o aroma a sabão azul misturava-se com o da vegetação nas margens.
A montante da ponte, era no “Poço Redondo” que as tardes se transformavam em magia. Um recanto protegido, no curso do ribeiro, por um chorão cujas folhas beijavam as águas translúcidas e onde os mais e menos novos mergulhavam durante horas.

Monte de Lobos traz-me de volta as memórias mais antigas da minha infância.

A memória já muito distante diz-me que os terrenos anexos eram aproveitados para pequenas culturas de subsistência.
Num outro extremo da aldeia, as vindimas eram feitas na encosta junto ao apeadeiro da linha de Caminhos de Ferro da Beira Alta. As uvas esmagadas por todos no lagar da adega eram motivo de festa até a noite cair.
No dia seguinte, após o descanso do guerreiro na “cama do chão” (um colchão colocado no soalho que eu adorava), o cansaço não existia, nunca existia, e as brincadeiras continuavam numa infância em bruto, simples e feliz.
Recordo estes anos em cada regresso a Monte de Lobos. Esta caminhada não foi excepção. Organizada pela Associação Cultural e Recreativa (ACR) de Monte de Lobos no Dia do Pai, foi também mais um motivo para rever gente boa e encher o coração.
Desde a sede da ACR descemos a Rua Principal em direcção ao apeadeiro. A estrada em calçada dá lugar ao alcatrão que nos leva por campos agrícolas onde a vinha assume particular destaque. Passamos por baixo da linha de Caminhos de Ferro e logo à direita, após uma pequena subida, chegámos ao apeadeiro, um espaço hoje diferente do que eu conheci há mais de 30 anos. Outrora pouco mais existia do que o túnel, a linha e a Casa da Guarda. Aqui também a inocência da idade permitia algumas brincadeiras, como a que transformava uma moeda de tostões deixada no carril, algum tempo antes de o comboio passar, numa medalha reluzente após a passagem do mesmo.
Caminhamos agora num trilho paralelo à linha, mantendo a devida distância de segurança, e subimos uma zona de eucaliptais até ao marco geodésico, o ponto de maior altitude do percurso.
A descida do monte passa pelas ruínas do antigo moinho de vento e mais adiante as paisagens abrem-se à nossa frente. Enquanto ganhamos energias com uma peça de fruta e um bolo, olhamos o casario da aldeia de onde dos telhados sai já algum fumo anunciando o almoço. Ao longe, a Serra do Caramulo emoldura todo o cenário.
Reentramos na povoação e dirigimo-nos agora para norte, cruzando a Rua Principal e descendo o bosque. No ribeiro de águas modestas a ponte de pedra permite-nos a passagem tranquila para a outra margem. Nesta zona frondosa paramos um pouco para escutar a envolvente. Respiramos mais puro.
Caminhamos na recta final com a aldeia à direita num caminho bem definido em terra batida até encontrarmos a Rua Pau da Mata que na última subida nos leva ao fim desta caminhada na sede da ACR de Monte de Lobos.
Terminámos a manhã com um Cozido à Portuguesa num convívio entre familiares e amigos que nos encheu a alma.

 

FICHA TÉCNICA

4,9 kmscircular
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